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Entrevista
 

Comportamentos Grupais e a adoção de ambientes digitais

Gisela Kassoy

Gisela Kassoy. Especialista em Criatividade, Inovação e Adoção de Mudanças, faz consultoria para a elaboração e reciclagem de programas de ideias, e elabora planos de adoção dos programas de ideias, gestão do conhecimento e ambientes colaborativos digitais. Também ministra seminários e palestras sobre esses temas e atua como facilitadora de grupos de geração e avaliação de ideias.

Graduada em Comunicações pela FAAP/SP, especializou-se em criatividade e inovação na Universidade de Nova York em Buffalo, no Center for Creative Leadership e fez curso de extensão na Sloan School of Management do MIT.

Fez também formação em Psicodrama Educacional, Dinâmica de Grupos e Grupos Operativos.

Alguns de seus clientes são: Camargo Corrêa, Abbott, Arcelor Mittal e Banco Itaú .

Seus trabalhos geram programas de ideias que visam melhorias de processos, redução de custos, desenvolvimento de produtos, estratégias de marketing e fomento a culturas favorecedoras da inovação e da colaboração.

Mais informações: giselakassoy.com.br

 

CONTENT DIGITAL: Gisela, como você sente a transposição de sua experiência com comportamentos grupais para os grupos e comunidades virtuais?

GISELA KASSOY: Interessantíssima, e com vantagens e desvantagens. Por exemplo, no virtual perde-se na leitura da expressão corporal, facial e da voz, mas há um ganho importante no trabalho assíncrono, não só porque é mais prático, mas porque as pessoas se expressam de forma diferente. Por exemplo, no trabalho assíncrono as sugestões chegam de forma mais elaborada. Outra vantagem do mundo virtual é a possibilidade de provocar trocas de ideias nas quais as pessoas podem participar sem identificação: há mais ousadia, tanto na geração como na avaliação das idéias.

 

CONTENT DIGITAL: O que você observa como principais focos na mudança cultural para as mídias sociais na empresa?

GISELA KASSOY: A cultura da troca de conhecimento ainda enfrenta dificuldades como o medo da perda de poder ou o desconforto em pedir ajuda. Em algumas empresas, as pessoas simplesmente não estão acostumadas a compartilhar. A administração do tempo também muda consideravelmente, pois não há espaço nas agendas para as mídias sociais, nem real nem psicológico. A mudança cultural será influenciada pela prática das mídias, mas não acontecerá naturalmente a partir da implantação das mesmas. Quem não conhece iniciativas que não decolaram ou tiveram um resultado aquém do potencial da empresa?

 

CONTENT DIGITAL: Como realizar as tais mudanças?

GISELA KASSOY: Mudança cultural é um termo delicado. Há aspectos da cultura que nem devem ser mudados, pois eles são o espírito da empresa. O que faço em meu trabalho é, após conhecer a cultura, avaliar como ela lida com determinados aspectos comportamentais e, a partir daí, tecer um plano para que a mudança ocorra. Por exemplo, certas empresas possuem um tipo de cultura voltada para tarefas, nas quais as pessoas precisam estar “agitando” para sentirem que estão trabalhando. No caso, o plano vai ter muitas metas e dead lines, por exemplo, os editores deverão inserir num wiki 10 artigos até determinada data.

 

CONTENT DIGITAL: Fale um pouco da tipologia junguiana que você costuma aplicar, e explique como ela se adapta para os ambientes virtuais corporativos. Que personagens você considera críticos para a construção da cultura colaborativa em mídias sociais?

GISELA KASSOY: Costumo aplicar a tipologia do Center for Creative Leadership, que é, de fato influenciada por Jung. Os perfis são quatro: o Realista – que é bem racional, o Estrutural, que é mais organizado e sistemático, o Afetivo, que tem mais competências interpessoais e o Visionário, que é o mais criativo. O Afetivo é o mais importante para a construção da cultura colaborativa, mas todos podem ajudar: o Realista pela objetividade, capacidade de síntese, facilidade com tags, o Estrutural com sua capacidade de organização e o Visionário por identificar rapidamente os benefícios das mídias em cada projeto da empresa.

 

CONTENT DIGITAL: E a sua própria experiência na adaptação a esses novos ambientes, você, tão habituada ao encontro presencial? O que tem sido marcante na sua própria aculturação?

GISELA KASSOY: Parece piada, mas o pior é a aculturação do meu corpo: detesto ficar muito tempo sentada. Como meu perfil é Afetivo-Visionário, às vezes fico intimidada com os aspectos operacionais, mas adoro os aspectos sociais, ver a influência das novas mídias no planeta. Às vezes sinto uma espécie de angústia ao fazer buscas – “será que este artigo é o mais interessante? Onde estão aquelas duas linhas que vão de fato ampliar meus horizontes?” Atualmente, evito navegar quando estou afobada, criei um momento especial que me permite desfrutar as informações.

 

CONTENT DIGITAL: Continuam válidas as abordagens tradicionais da gestão de mudanças, desde Kurt Lewin, grupos operativos do Pichon Rivière etc? O que há para ser aprendido com vistas a acelerar a aculturação para as mídias sociais?

GISELA KASSOY: São válidas, mas algumas revisões devem ser feitas. Por exemplo, tanto Kurt Lewin quanto Pichon Rivière até Freud viveram em épocas nas quais a tradição era mais valorizada do que a mudança. “Para que mudar?” era um argumento válido. A grande riqueza dos clássicos foi considerar as resistências não explícitas e não conscientes. Para lidar com adoção de mídias sociais, precisamos considerar também estudos específicos e atuais como os de Everett Rogers e Ralph Katz.

 

CONTENT DIGITAL: Então, para finalizar por hoje, você nos conta os principais ângulos trazidos por Rogers e Katz para o planejamento dessas mudanças?

GISELA KASSOY: Everett Rogers trouxe os perfis de reação às inovações - Inovadores, Adotadores Precoces, Maioria Precoce, Maioria Tardia e Retardatários. Apesar de ele ter se dedicado em parte a inovações nas organizações, a maior parte de seus estudos são baseados em escolhas voluntárias sobre inovar ou não. De qualquer forma, uma empresa pode adotar táticas específicas para cada perfil (reconhecer as contribuições dos inovadores e dos adotadores precoces, por exemplo) . Ralph Katz combina bem as dimensões humanas, organizacionais e tecnológicas. Tive aulas com ele no MIT e acabei ganhando o livro “The Human Side of Managing Technological Innovation”, uma coletânea na qual ele contribui junto com outros autores super feras. É um livro precioso tanto para a geração como adoção de inovações nas empresas.

 

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